Uso uma cruz vazia pendurada no pescoço, um pingente, desses baratos banhados em ouro; pelo menos foi o que disse a vendedora. Esse pingente, essa cruz foi um presente de minha mulher. Gosto muito de usá-lo e ela mesma se sente feliz por eu estar satisfeito com um presente dela. Até aí, tudo certo não fosse por um pequeno inconveniente: sempre tenho que explicar aos pentecostais que me abordam, exigindo de minha parte uma retratação por estar usando um objeto de “idolatria”, que “o uso da cruz não é idolatria e que, desde os tempos mais primitivos da igreja, a cruz já era uma identificação do cristianismo, e que seu uso não foi difundido como objeto de adoração, mas como testemunho público daqueles que abraçaram sua fé em Cristo, num tempo em que confessar publicamente sua fé em Jesus era colocar a cabeça a prêmio”. Eu usei o termo “inconveniente”, pois desde que comecei a usar a cruz, esperava poder explicar seu significado àqueles que não conhecem de Jesus, com o intuito de poder fazer difundir um pouco da luz do evangelho na escuridão da ignorância daqueles que, como Zaqueu, conhecem Jesus só de ouvir falar, e não ter que “pregar o evangelho pra crente”, como dizia meu pai, que considerava essa tarefa “a mais difícil empreitada na vida de um mensageiro de Cristo”.
No entanto, se por um lado sempre achei inconveniente pregar o evangelho para crentes, por outro acredito que a missão mais significativa de um cristão é falar de Jesus aos que não o conhecem e isso inclui uma grande maioria de cristãos, inclusive os pentecostais fundamentalistas. - O Cristão deve apontar para a Cruz de Cristo, como uma bússola aponta sempre para o norte, independentemente da postura que seu portador assumir. O mundo pode tomar as mais variadas posições em relação ao Cristo, o cristão jamais deverá apontar outra direção que não seja seu sacrifício e sua ressurreição; esses episódios foram precisamente marcados por símbolos numa época em que o evangelho precisava deixar sua marca definitiva na mente de uma multidão de homens e mulheres iletrados, que por essa razão precisavam recorrer a semiótica para compor um mundo pleno de significados. Foi nessa época, que não só a cruz, mas a figura do peixe e o cordeiro aos poucos foram sendo associados ao simbolismo cristão.
Então faço a pergunta que sempre me vem à mente quando meus interlocutores apontam o dedo dando-me a alcunha de idólatra: Qual o significado da cruz para você? Acreditem-me, as respostas são as mais estapafúrdias que se pode imaginar. Ouve até quem chamasse a cruz de Cristo “instrumento maldito por ter nele morrido meu salvador”. Meu Deus! Isso é risível. Se não fosse pela morte do Cristo, ninguém teria alcançado a salvação. Tudo bem, se há muita gente que duvida disso, mas eu sou coerente com a fé que professo. E baseando-me no testemunho do Novo Testamento, fica a crucial pergunta: Como esse abençoado queria ser salvo senão pelo sacrifício de Cristo na cruz? Quem descobrir, de acordo com o testemunho do Novo Testamento, outro meio de alcançar a salvação, me fale. A morte de Cristo é o pilar fundamental do Cristianismo. Tire da bíblia a morte de Cristo na cruz e você destrói toda a teologia cristã. Tudo na bíblia aponta para o calvário. – Lembra da história da bússola? – No entanto, algo me incomoda: Há uma falta de conhecimento absurda por parte da maioria dos evangélicos no Brasil, no que tange à sua própria fé.
Carregar um cordão com uma cruz pendurada não faz de você um idólatra. Tampouco faz de você um cristão. No entanto não conheço ninguém que odeia o cristianismo ser capaz de ostentar seu símbolo mais conhecido. Assim como seria uma contradição alguém ser contra o casamento e andar com uma aliança de casamento no dedo. Aliás, existe uma infinidade de evangélicos que usam aliança de casamento sem mesmo ter curiosidade de perguntar de onde veio tal costume; eu posso afirmar: esse não é um costume cristão, muito pelo contrário, suas origens remontam às crenças pagãs dos gregos e romanos. Esse anel, aliança, surgiu entre os gregos e os romanos, provavelmente vindo de um costume hindu de usar um anel para simbolizar o casamento. Os romanos acreditavam que no quarto dedo da mão esquerda passava uma veia (veia d'amore) que estava diretamente ligada ao coração, costume carregado culturalmente até os dias de hoje. Nunca houve esse costume entre os cristãos primitivos, e nossos “santarrões” usam sem perceber que estão dando continuidade a um costume pagão. Algum problema? Claro que não! só citei tal fato para esclarecer o quanto a ignorância nos pode tornar ridículos. - Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
De igual modo é hilário ver evangélicos reprovando o uso da cruz nas igrejas, enquanto adotam a árvore de natal. Ora, Enfeitar árvores é um ritual antiquíssimo, presente em praticamente todas as culturas e religiões pagãs, para celebrar a fertilidade da natureza. Esse costume foi aos poucos sendo adotado pelos cristãos até se tornar um dos símbolos do nascimento de Jesus, que nada tem a ver com árvores enfeitadas. Isto é, não podemos usar a cruz, pois a mesma é objeto de idolatria, mas podemos usar a árvore de natal, um dos símbolos do paganismo para anunciar o nascimento de Jesus, e isso manifesta outra contradição, pois não vemos em nenhum lugar do Novo Testamento alguém ordenando fazer aniversário de nascimento de Jesus; no entanto, sua morte, segundo Ele mesmo ordenou, deveria ser lembrada até sua volta.
E por falar em aniversário, é muito comum ver igrejas empenhadas em confeitar bolos para aniversários de pastor. Qualquer pessoa que tem conhecimento de cultura antiga sabe muito bem que celebrar uma data importante com direito a guloseimas tem sua provável origem nas festas de culto aos deuses da Antiguidade. Agradeça à deusa Ártemis, celebrada pelos gregos como a matrona da fertilidade, pelo aparecimento do bolo de aniversário. Ele é provavelmente a evolução de um preparado de mel e pão, no formato de uma lua, que fiéis levavam ao famoso templo em homenagem a ela em Éfeso, antiga colônia grega na atual Turquia.
Com a cristianização de boa parte do mundo, os costumes pagãos foram desaparecendo com sua forma original para renascer em roupagem cristã, e foi assim que a tradição ressurgiu na Alemanha medieval, onde se costumava preparar uma massa de pão doce no formato do menino Jesus no Natal. Depois essa guloseima seria adaptada para a comemoração do aniversário de crianças. Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
Já o uso de velas nos bolos de aniversário também se trata de uma herança do culto aos deuses antigos, que tinham a missão de levar, por meio da fumaça, os desejos e as preces dos fiéis até o céu, para que eles fossem atendidos. Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
Outro costume presente nos aniversários de crentes é o ato de soprar as velas, outra tradição pagã; Esta tradição também remonta aos tempos da Grécia antiga, quando o povo grego, devoto dos deuses, realizava oferendas para aplacar a sua ira e mantê-los favoráveis. Os gregos costumavam oferecer a Ártemis, deusa da Lua (mais tarde venerada como deusa da floresta e da caça, corresponde à deusa romana Diana), pastéis redondos que representavam a lua cheia e sobre eles prendiam velas para simular seu brilho. De seguida, formulavam um desejo e esperavam, ao soprar as velas, que o fumo elevasse o seu pedido para a deusa. - Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
O que mais preocupa é que esses crentes em Jesus não procuram caminhar pelas vias do cristianismo puro e sadio. Não entendem que as igrejas protestantes de todo mundo usam a cruz, e que somente no Brasil evitaram seu uso, não por entender que fosse um símbolo da idolatria, mas por retaliação aos católicos que perseguiam “crentes” no início da pentecostalização do Brasil. Era uma forma de cravar os piquetes que seriam os responsáveis pela divisão: salvos pra cá, perdidos pra lá, aliás, uma guerra cujo único propósito era estabelecer alargamento de fronteiras em busca de garantir adeptos. O resultado dessa infantilidade se concluiu em seguida. De um lado os católicos acusavam os protestantes de anticristos, por não usar a cruz; do outro, os protestantes acusavam os católicos de idólatras, por usar a cruz. – É ou não é para rir? O tempo passou e os católicos hoje buscam aproximação com os evangélicos, os quais chamam “irmãos separados”, enquanto os evangélicos pentecostais fundamentalistas continuam acusando os católicos de idólatras pelo uso da cruz. - Eu sei muito bem, que muitas igrejas reformadas já assumiram o uso da cruz, inclusive algumas neopentecostais, por entender que a cruz é o símbolo mais conhecido do cristianismo e que seu uso está muito longe de significar idolatria, aliás, algo amplamente praticado dentro das igrejas evangélicas em sua grande maioria, e que ingenuamente não percebem.
O que eu penso da cruz? Tenho algumas ressalvas, mas já de antemão, quero colocar com muito cuidado para não ser mal interpretado. - Uso uma cruz vazia, pois para mim, na minha compreensão, e baseado no Novo Testamento, a cruz está vazia, e esse é o maior testemunho de que cremos na ressurreição. Contudo, não critico os católicos pelo uso da cruz com a figura do cristo crucificado, só digo que tenho outra compreensão que me conforta plenamente. Tampouco critico aqueles que preferem não utilizar cruz nenhuma; só advirto para o cuidado de não cometerem o erro de acusar inadvertidamente aqueles que procuram seguir a Jesus, apesar das muitas dificuldades de praticar sua crença sincera nesse mundo inundado por trevas. - Penso que se essa ala cristã caminhasse mais pelas vias do cristianismo sadio, puro e simples, não estariam carregando um fardo tão pesado, como é esse de viverem neurotizados por banalidades tão fúteis, como é o caso de achar que carregar uma cruz no pescoço fosse motivo para ser alvo da ira de Deus, assim como não creio que Deus nos enfiaria no inferno porque enfeitamos arvores no natal, assamos bolos de aniversário e sopramos velas. – Porque acredito nisso? Porque o testemunho da maior prova de amor que o mundo já presenciou trago comigo, impresso no meu coração e, pendurado no meu pescoço para testemunhar ao mundo. – A Cruz está vazia!




