segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

PELO DIREITO DA CRUZ VAZIA


    Uso uma cruz vazia pendurada no pescoço, um pingente, desses baratos banhados em ouro; pelo menos foi o que disse a vendedora. Esse pingente, essa cruz foi um presente de minha mulher. Gosto muito de usá-lo e ela mesma se sente feliz por eu estar satisfeito com um presente dela. Até aí, tudo certo não fosse por um pequeno inconveniente: sempre tenho que explicar aos pentecostais que me abordam, exigindo de minha parte uma retratação por estar usando um objeto de “idolatria”, que “o uso da cruz não é idolatria e que, desde os tempos mais primitivos da igreja, a cruz já era uma identificação do cristianismo, e que seu uso não foi difundido como objeto de adoração, mas como testemunho público daqueles que abraçaram sua fé em Cristo, num tempo em que confessar publicamente sua fé em Jesus era colocar a cabeça a prêmio”. Eu usei o termo “inconveniente”, pois desde que comecei a usar a cruz, esperava poder explicar seu significado àqueles que não conhecem de Jesus, com o intuito de poder fazer difundir um pouco da luz do evangelho na escuridão da ignorância daqueles que, como Zaqueu, conhecem Jesus só de ouvir falar, e não ter que “pregar o evangelho pra crente”, como dizia meu pai, que considerava essa tarefa “a mais difícil empreitada na vida de um mensageiro de Cristo”.
           No entanto, se por um lado sempre achei inconveniente pregar o evangelho para crentes, por outro acredito que a missão mais significativa de um cristão é falar de Jesus aos que não o conhecem e isso inclui uma grande maioria de cristãos, inclusive os pentecostais fundamentalistas. - O Cristão deve apontar para a Cruz de Cristo, como uma bússola aponta sempre para o norte, independentemente da postura que seu portador assumir. O mundo pode tomar as mais variadas posições em relação ao Cristo, o cristão jamais deverá apontar outra direção que não seja seu sacrifício e sua ressurreição; esses episódios foram precisamente marcados por símbolos numa época em que o evangelho precisava deixar sua marca definitiva na mente de uma multidão de homens e mulheres iletrados, que por essa razão precisavam recorrer a semiótica para compor um mundo pleno de significados. Foi nessa época, que não só a cruz, mas a figura do peixe e o cordeiro aos poucos foram sendo associados ao simbolismo cristão.
   Então faço a pergunta que sempre me vem à mente quando meus interlocutores apontam o dedo dando-me a alcunha de idólatra: Qual o significado da cruz para você? Acreditem-me, as respostas são as mais estapafúrdias que se pode imaginar. Ouve até quem chamasse a cruz de Cristo “instrumento maldito por ter nele morrido meu salvador”. Meu Deus! Isso é risível. Se não fosse pela morte do Cristo, ninguém teria alcançado a salvação. Tudo bem, se há muita gente que duvida disso, mas eu sou coerente com a fé que professo. E baseando-me no testemunho do Novo Testamento, fica a crucial pergunta: Como esse abençoado queria ser salvo senão pelo sacrifício de Cristo na cruz? Quem descobrir, de acordo com o testemunho do Novo Testamento, outro meio de alcançar a salvação, me fale. A morte de Cristo é o pilar fundamental do Cristianismo. Tire da bíblia a morte de Cristo na cruz e você destrói toda a teologia cristã. Tudo na bíblia aponta para o calvário. – Lembra da história da bússola? – No entanto, algo me incomoda: Há uma falta de conhecimento absurda por parte da maioria dos evangélicos no Brasil, no que tange à sua própria fé.
          Carregar um cordão com uma cruz pendurada não faz de você um idólatra. Tampouco faz de você um cristão. No entanto não conheço ninguém que odeia o cristianismo ser capaz de ostentar seu símbolo mais conhecido. Assim como seria uma contradição alguém ser contra o casamento e andar com uma aliança de casamento no dedo. Aliás, existe uma infinidade de evangélicos que usam aliança de casamento sem mesmo ter curiosidade de perguntar de onde veio tal costume; eu posso afirmar: esse não é um costume cristão, muito pelo contrário, suas origens remontam às crenças pagãs dos gregos e romanos. Esse anel, aliança, surgiu entre os gregos e os romanos, provavelmente vindo de um costume hindu de usar um anel para simbolizar o casamento. Os romanos acreditavam que no quarto dedo da mão esquerda passava uma veia (veia d'amore) que estava diretamente ligada ao coração, costume carregado culturalmente até os dias de hoje. Nunca houve esse costume entre os cristãos primitivos, e nossos “santarrões” usam sem perceber que estão dando continuidade a um costume pagão. Algum problema? Claro que não! só citei tal fato para esclarecer o quanto a ignorância nos pode tornar ridículos. - Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
          De igual modo é hilário ver evangélicos reprovando o uso da cruz nas igrejas, enquanto adotam a árvore de natal. Ora, Enfeitar árvores é um ritual antiquíssimo, presente em praticamente todas as culturas e religiões pagãs, para celebrar a fertilidade da natureza. Esse costume foi aos poucos sendo adotado pelos cristãos até se tornar um dos símbolos do nascimento de Jesus, que nada tem a ver com árvores enfeitadas. Isto é, não podemos usar a cruz, pois a mesma é objeto de idolatria, mas podemos usar a árvore de natal, um dos símbolos do paganismo para anunciar o nascimento de Jesus, e isso manifesta outra contradição, pois não vemos em nenhum lugar do Novo Testamento alguém ordenando fazer aniversário de nascimento de Jesus; no entanto, sua morte, segundo Ele mesmo ordenou, deveria ser lembrada até sua volta.
       E por falar em aniversário, é muito comum ver igrejas empenhadas em confeitar bolos para aniversários de pastor. Qualquer pessoa que tem conhecimento de cultura antiga sabe muito bem que celebrar uma data importante com direito a guloseimas tem sua provável origem nas festas de culto aos deuses da Antiguidade. Agradeça à deusa Ártemis, celebrada pelos gregos como a matrona da fertilidade, pelo aparecimento do bolo de aniversário. Ele é provavelmente a evolução de um preparado de mel e pão, no formato de uma lua, que fiéis levavam ao famoso templo em homenagem a ela em Éfeso, antiga colônia grega na atual Turquia.
          Com a cristianização de boa parte do mundo, os costumes pagãos foram desaparecendo com sua forma original para renascer em roupagem cristã, e foi assim que a tradição ressurgiu na Alemanha medieval, onde se costumava preparar uma massa de pão doce no formato do menino Jesus no Natal. Depois essa guloseima seria adaptada para a comemoração do aniversário de crianças. Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
          Já o uso de velas nos bolos de aniversário também se trata de uma herança do culto aos deuses antigos, que tinham a missão de levar, por meio da fumaça, os desejos e as preces dos fiéis até o céu, para que eles fossem atendidos. Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
       Outro costume presente nos aniversários de crentes é o ato de soprar as velas, outra tradição pagã; Esta tradição também remonta aos tempos da Grécia antiga, quando o povo grego, devoto dos deuses, realizava oferendas para aplacar a sua ira e mantê-los favoráveis. Os gregos costumavam oferecer a Ártemis, deusa da Lua (mais tarde venerada como deusa da floresta e da caça, corresponde à deusa romana Diana), pastéis redondos que representavam a lua cheia e sobre eles prendiam velas para simular seu brilho. De seguida, formulavam um desejo e esperavam, ao soprar as velas, que o fumo elevasse o seu pedido para a deusa. - Mas, tudo bem. Dar continuidade a esse rito pagão não tem problema, o que não podemos é usar a cruz de Cristo, pois isso é idolatria.
       O que mais preocupa é que esses crentes em Jesus não procuram caminhar pelas vias do cristianismo puro e sadio. Não entendem que as igrejas protestantes de todo mundo usam a cruz, e que somente no Brasil evitaram seu uso, não por entender que fosse um símbolo da idolatria, mas por retaliação aos católicos que perseguiam “crentes” no início da pentecostalização do Brasil. Era uma forma de cravar os piquetes que seriam os responsáveis pela divisão: salvos pra cá, perdidos pra lá, aliás, uma guerra cujo único propósito era estabelecer alargamento de fronteiras em busca de garantir adeptos. O resultado dessa infantilidade se concluiu em seguida. De um lado os católicos acusavam os protestantes de anticristos, por não usar a cruz; do outro, os protestantes acusavam os católicos de idólatras, por usar a cruz. – É ou não é para rir? O tempo passou e os católicos hoje buscam aproximação com os evangélicos, os quais chamam “irmãos separados”, enquanto os evangélicos pentecostais fundamentalistas continuam acusando os católicos de idólatras pelo uso da cruz. - Eu sei muito bem, que muitas igrejas reformadas já assumiram o uso da cruz, inclusive algumas neopentecostais, por entender que a cruz é o símbolo mais conhecido do cristianismo e que seu uso está muito longe de significar idolatria, aliás, algo amplamente praticado dentro das igrejas evangélicas em sua grande maioria, e que ingenuamente não percebem.
           O que eu penso da cruz? Tenho algumas ressalvas, mas já de antemão, quero colocar com muito cuidado para não ser mal interpretado. - Uso uma cruz vazia, pois para mim, na minha compreensão, e baseado no Novo Testamento, a cruz está vazia, e esse é o maior testemunho de que cremos na ressurreição. Contudo, não critico os católicos pelo uso da cruz com a figura do cristo crucificado, só digo que tenho outra compreensão que me conforta plenamente. Tampouco critico aqueles que preferem não utilizar cruz nenhuma; só advirto para o cuidado de não cometerem o erro de acusar inadvertidamente aqueles que procuram seguir a Jesus, apesar das muitas dificuldades de praticar sua crença sincera nesse mundo inundado por trevas.  - Penso que se essa ala cristã caminhasse mais pelas vias do cristianismo sadio, puro e simples, não estariam carregando um fardo tão pesado, como é esse de viverem neurotizados por banalidades tão fúteis, como é o caso de achar que carregar uma cruz no pescoço fosse motivo para ser alvo da ira de Deus, assim como não creio que Deus nos enfiaria no inferno porque enfeitamos arvores no natal, assamos bolos de aniversário e sopramos velas. – Porque acredito nisso? Porque o testemunho da maior prova de amor que o mundo já presenciou trago comigo, impresso no meu coração e, pendurado no meu pescoço para testemunhar ao mundo. – A Cruz está vazia!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SOBRE SAUDADE, CANTORES E CANTORES EVANGÉLICOS

                    “ O tambor faz barulho, mas é vazio por dentro”. (Barão de Itararé)

Sou um cara apaixonado pela música evangélica. De verdade. Sou cria de um lar onde a música evangélica se parecia com as águas de uma torrente perene, marulhando dentro de casa continuamente. Meus pais cantavam os “hinos” da Harpa Cristã, hinário das Assembléias de Deus, nos cultos domésticos todas as manhãs e nós, a meninada, com eles. Minha mãe gostava dos hinos a que chamavam “avulsos”, ou seja, aqueles que não constavam do hinário e aí, dá-lhe cânticos o dia inteiro. Enquanto lavava roupa, varria a casa ou cozinhava a beira do fogão a lenha. A gente dormia e acordava com cânticos.
Havia um rádio enorme, metade madeira, metade sabe-se lá o quê, que ficava ligado o dia inteiro e parte da noite. Aí o locutor dizia:
“– Agora vamos ouvir mais um louvor, para seu enlevo espiritual”.
Enlevo Espiritual? Eu lá sabia o que queria isso dizer! Mas era a voz do grande Matheus Iensen que entoava com as Irmãs Falavinhas e apesar de ser uma palavra estranha, parecia ser algo bom. Fui perguntar pro meu irmão, ele me enrolou. Sabia tanto quanto eu. Minha irmã, coitadinha; meu irmão caçula, esse é que não saberia mesmo, com cinco anos! Então fui pra minha mãe, e ela desconversou:
– “Seu pai é quem sabe dessas coisas”. – Aí meu pai disse:
– “Enlevo é quando você fica muito alegre”.
Olha só, que legal... O cara tocava música pra gente ficar alegre! Muito tempo depois, já gente grande eu fui saber que enlevo significa: Encanto, deleite; êxtase, arroubamento, arroubo. - E para nosso enlevo tocavam Edson e Telma, Josué Lira, Oséias de Paula, Otoniel e Oziel, Luis de Carvalho... A lista some no horizonte, é muita gente se dedicando ao “enlevo espiritual” de gente perdida num canto distante do ermo Goiás.
Minha mãe gostava de uns caras que tinham ritmo de “caipiras”, os Irmãos Marinhos; esses gostavam de cantar aconselhando as pessoas a se tornarem evangélicas. Tinha um senhor que nunca esqueci: Valdomiro Silva e Filhos, que cantavam falando sobre uns passarinhos. Tinha outro, Feliciano Amaral, um cantor que transpirava poesia; “Eterno Fanal”, meu Deus, a letra dessa composição é de fazer calar o som de uma metrópole! O meu preferido era e sempre foi Oséias de Paula e seus belos hinos cheios de construções poéticas e metáforas riquíssimas, tipo “mais que um pobre exilado ama a pátria que deixou” ou imagens impressionantes como “meu barquinho navega sutil sob o lume solar” ou “folhas ao vento cantavam meu fim”, “ Semeei a semente, sim na primavera, reguei-a com choro, lágrima e dor/mas outro talvez ceifará o meu trigo nem sempre sabendo a dor que custou/para quem trabalhou sempre com sol e chuva e com paciência a semente plantou”.
Para mim houve um compositor brasileiro que fez historia na musica religiosa, e desse talvez pouca gente (muito pouca mesmo!) tenha ouvido falar – Edson Coelho, que segundo vi na net, para minha alegria, continua na ativa com sua esposa, a “consagradíssima” “irmã Telma”.
Mas, para meu desgosto, aquela geração de grandes poetas sacros, desapareceu para dar início a uma geração de “profetas vazios”. Não, não sou saudosista e não suporta isso! Gosto de atualidades, do que é moderno, desde que se faça isso com respeito. Quer um exemplo? Gostava da máquina de escrever, mas gosto mais de computador. Acontece que da máquina para o micro houve uma evolução respeitosa. Agora, querer construir o futuro desconstruindo o passado é demais pra minha cabeça e no caso da música evangélica no Brasil, a construção de uma nova obra aconteceu com material de segunda. Nunca se cantou tanta música evangélica no Brasil, e em contrapartida, nunca se cantou tanta asneira como se tem visto.
A música evangélica não pode ser vista com a mesma ótica que as músicas leigas. Enquanto essas existem para enaltecer o espírito no que tange a esfera das finitudes, como o amor compreendido dentro das noções humanas de apego e posse, as noções do belo e seu entendimento na esfera da filosofia, com uma compreensão sociológica e cultural, a música evangélica busca a compreensão no plano do Ágape, do amor construído na eternidade, e se há algo que não se pode tolerar no evangelho é uma teologia desnutrida de espiritualidade coexistindo com a fome de salvação que grassa o mundo. Aliás, na maioria das vezes chamarmos isso de musica evangélica chega até mesmo ser ofensa. Claro, existe nesse meio quem ainda busca o verdadeiro louvor, com todas as honras voltadas ao Construtor do Universo, mas são muito poucos. A maioria está em busca de fãs, embevecidos pelos gritos e aplausos das multidões, os caçadores de holofotes.
O canto não toca mais na profundidade da alma, pois há uma tendência de se acompanhar os ditames das modas, do contrário não são vendáveis.
Ouvi uma irmã cantar num culto “alma cansada, não desespere, espera em Deus, que ele vem te socorrer” – A primeira vez que ouvi essa música foi em minha casa, pela voz doce e firme de minha irmã. Nunca mais saiu de minha cabeça. Na minha infância ouvi muito essa canção em vitrolas de disco de vinil (Long Play) que as gerações de hoje sequer sabem de sua existência. Quem cantava lá era Edson e Telma. Meu Deus, que enlevo! - O pastor, meu amigo particular, disse depois numa roda de tereré que “aquela irmã gostava de cantar esses hinos “fora de moda”. – Emudeci. Até então não sabia que coisas concernentes ao evangelho ficavam “fora de moda!” A mensagem do evangelho é eterna! As mesmas coisas que os discípulos falavam há dois mil anos, nós falamos ainda. O salmo 23 ainda é recitado, depois de 3.000 anos! O que será que esse cara pensa que é o evangelho? Uma cartilha que segue os ditames das tendências midiáticas? Existe um grupo de “estilistas norteando a moda das músicas evangélicas?”– É “nisso”, nessa aberração, nesse monstro desprovido de formas que estão transformando o louvor.
 Estou ouvindo todos os dias um grande número de pessoas que vão aos templos repetirem frases de efeitos, como torcidas organizadas nos estádios de futebol. Os cultos deixaram de serem cultos e passaram a ostentar o status de show. Os pregadores mais parecem com apresentadores de programas de auditórios, isso quando não transformam as pregações em “palestras” e os cantores em pop star que vão aos shows, fazem seu número e vão embora enquanto o povo grita seus nomes. O objeto do culto não é mais o Criador, pois a criatura tomou seu lugar. Os “crentes” não vão mais aos templos para cantar, mas para ver a “Fulana” que está recebendo um cachê polpudo para vir “Louvar”.
 –E como se não bastasse toda essa balbúrdia, temos que suportar esses “louvores” totalmente desprovidos de consciência cristã, cheios de erros teológicos, má compreensão da palavra de Deus, onde pinçam versículos isolados e descontextualizam passagens para formar um Frankenstein musical, costurado dos pés a cabeça. A isso costumo chamar “música colcha de retalhos”, isto é, o cara pega uma passagem direcionada para o povo judeu, aplica para a igreja, enquanto pega uma direcionada para a igreja e aplica para o mundo ímpio, então pega uma passagem direcionada para o mundo ímpio e a aplica para o povo judeu. E segue nessa barafunda transloucada, e o final é uma sucessão de gritos e acordes altos, misturados à palavras de ordem como “Jesus está nesse lugar, pois sinto sua presença”, ou “Quem está sentindo a presença de Deus dê um brado bem alto” e assim por diante, pois acabou-se a era dos louvores genuínos, aquele tempo em que o cantor não precisava entrar num festival de apelação, “forçando a barra” ou “viajando na maionese” para sentir que seu trabalho era valorizado. Aliás, na mentalidade do pentecostal moderno, a multidão tem que entrar num ambiente de histeria, com gritos e sapateados. Se você não começar a gritar como um desvairado, o Espírito Santo não desceu sobre você. Já ouvi um cantor evangélico exortar de púlpito, entre um cântico e outro: “Enquanto a igreja está nadando no poder de Deus, tem crente mais frio que uma barra de gelo na igreja”. Ele precisava provar que era um mensageiro de Deus e para isso, a igreja tinha que apelar para a histeria. Ou seja, gritaria é sinal do poder de Deus. Onde “cargas d’água” encontraram isso na bíblia é que é o problema.
 A igreja evangélica recebe uma multidão de novas músicas todos os anos, e o assunto gira em torno de uma fórmula completamente desambientada do cristianismo, sem poesia e construções literárias paupérrimas, repetindo frases criadas num ambiente ex-biblia
Não se fala mais em fé em Cristo, falam sempre de uma vitória;  – “Vitória irmão, Jesus vai te dar vitória!” – sabe-se lá o que significa essa vitória, pois isso vai do momento. Vitória pode ser qualquer coisa: uma casa boa, um carro importado, uma conta gorda no banco, o prêmio da loteria! – Ora, a vitória Ele já nos deu... A Sua Palavra diz que Nele somos mais que vencedores! Então, não estamos em busca de alcançar a vitória... Nós já a alcançamos no momento em que encontramos com Cristo! Mas para essa gente, encontrar a vitória é ter um emprego melhor, uma casa melhor, um carro melhor... Esquecem que vida com Cristo é ambientada no plano da eternidade. Você não precisa de uma mansão para ser vitorioso. Você precisa é ter a mente de Cristo...
Acabou a teologia do louvor! Acabou a poesia do louvor. Acabou a sacralidade do louvor... Acabou o louvor!... 
Já faz alguns anos, certa moça veio do distante canadá para passar uns tempos na casa de um parente meu, num desses  programas de intercâmbio cultural. Simpática, educada, comedida e de um refinamento impensável para quem está acostumado com a falta de educação dos habitantes  desse lado de cá dos trópicos. Ganhou de imediato a simpatia de todos e quando estava de partida, acabei entrando na história. Pediram-me para redigir uma mensagem abordando o termo saudade, o que para mim foi um grande desafio: Explicar para uma canadense o significado de saudade. Saudade não é para explicar, saudade é para sentir. Mas, enfim, expliquei para ela, em vinte linhas que "saudade é a vontade de estar perto de quem está longe, de ver quem não existe mais". 
É isso que sinto em relação aos cantores evangélicos. – Saudade de um louvor que não existe mais. Que pena!

terça-feira, 5 de julho de 2011

SOBRE AMOR, ORAÇÃO E JEJUM

"Ninguém consegue amar a Deus odiando seu próximo" (Jesus de Nazaré)

Meu amigo e irmão de caminhada, poeta, escritor, jornalista e sobretudo místico apaixonado por Jesus Cristo e seus ensinos, Wanderley Wasconcelos escreveu-me solicitando opinião a respeito do Jejum Cristão. Após ler a resposta, solicitou-me que postasse neste blog, pois cuidava poder com isso estar auxiliando outras pessoas no mundo. Atendi-o de pronto, agradecido pelas suas palavras de incentivo e grato a Deus por ter sido tão generoso comigo a ponto de conceder-me o privilégio de poder caminhar ao lado de pessoas tão ilustres. Eis a carta:


Prezado irmão.
Recebi seu e-mail solicitando informações sobre o jejum cristão. Eu sei muito pouco sobre o jejum, apesar de ter jejuado muito no passado; hoje em dia não tenho jejuado mais. Já faz tanto tempo que nem me lembro quando o fiz pela última vez, tampouco me lembro do propósito...
Houve tempo em que minha fé era mais acesa, e isso me permitia caminhar melhor nessa grande noite do mundo. Com o passar do tempo fui perdendo mais e mais desse lume e hoje vivo em busca de resgatar o que deixei para trás em algum ponto longínquo do caminho. Confesso a você, com certo pesar. A ausência da fé não é algo para ninguém confessar com orgulho, mas eu já tive dela uma porção maior. Mas segundo o Grande Mestre, nem é preciso ter muito, pois uma quantidade do tamanho de um grão de mostarda é capaz de transportar montanhas.
Sabia que o jejum não é uma prática exclusiva de judeus e cristãos? Parece certo afirmar que “todas as religiões do mundo tem pelo menos três coisas em comum: canto, oração e jejum”. Até mesmo os iniciados em rituais afros praticam o jejum em algum ponto de suas obrigações sacerdotais, apesar de que tal siga uma orientação totalmente diferente.
É certo que o Cristo jejuou, e o fez por um período de 40 dias, no deserto da Judéia, assim como Moisés no Antigo Testamento fez em Midiã. Parece que os grandes líderes bíblicos tinham o costume de jejuar por longos períodos antes de assumir uma grande responsabilidade. São casos de jejuns que visam preparar o espírito para uma tarefa.
E eles não foram os únicos, apesar de terem proclamado os mais famosos jejuns da bíblia. Os profetas jejuavam constantemente; Davi jejuou por ocasião da doença do filho que teve com Betsabah, e esse morreu depois forçando o pai a abandonar seu período de consagração. Temos aí o jejum que visa alcançar diante de Deus um pedido. É o jejum que acompanha uma súplica.
Os sacerdotes jejuavam sempre; os profetas eram os que mais jejuavam, inclusive com a prática de comer ervas amargas em algum ponto do jejum, como prova de sacrifícios oferecidos a Deus, e há mesmo uma belíssima cena na bíblia que possui ares cinematográficos, com uma cidade inteira jejuando em clamor e arrependimento, pois até mesmo os cavalos tiveram sacos cobrindo-lhes as bocas por ordem de seu governante. Isso se deu depois das mensagens do profeta Jonas sob as ameaças de Deus que infligiria castigo sobre Nínive, devido às suas maldades. Esse é um caso clássico do jejum como prova de arrependimento e por vezes Deus acabava por revogar uma sentença diante de cenas assim (embora para mim sempre fosse um dos pontos mais conflitantes da bíblia, pois se Deus já sabe o que irei fazer como revogaria uma sentença diante de minha petição?... Como eu já disse, houve um tempo que minha fé ainda não tinha sido maculada pela razão.
O próprio Cristo exortou certa vez os discípulos dizendo: “Jejuai e orai para não caírem quando forem tentados” e criticou duramente os fariseus pelo modo como jejuavam, ou seja, “para serem vistos pelos homens”. E essa é uma característica marcante do jejum cristão: Cristão nenhum pode jejuar para mostrar aos outros o seu potencial de fé, tanto que as igrejas evangélicas primitivas ensinavam que “ao jejuar nenhum crente deve confessar ao outro que está jejuando”. Exageros a parte, era uma tentativa de impedir que tais crentes cometessem o pecado do orgulho da fé.
Existem muitas opiniões sobre jejuns, tanto quanto se pode imaginar. Há quem diz que o jejum é uma forma de sacrifício oferecido a Deus, com base no jejum do velho testamento, o que não é correto dizer. O jejum judaico não tinha o mesmo propósito do jejum cristão, embora fosse oferecido ao mesmo Deus. O Judeu sacrificava a Deus, os cristãos entendem que o sacrifício já foi feito pelo filho dele. Dizer que jejuamos para oferecer a Deus um holocausto é invalidar o sacrifício do Cristo por nós; essa é a compreensão cristã. Então porque jejua o cristão? Por louvor, adoração, reconhecimento e gratidão. O jejum cristão não pode assumir caráter de sacrifício sob pena de não ser recebido pelo Pai. O cristão jejua por ter prazer em estar em comunhão com seu Deus. Comunhão é uma palavra traduzida do koiné, o grego vulgar “koinonya” significando algo como “relação íntima”. Ou seja, fala de algo bem próximo as bodas alquímicas conhecida dos rosacruzes.
Outro caráter do jejum é a chamada “mortificação da carne”, muito praticado por monges das mais diversas religiões, como budismo, catolicismo, etc. Isto é, quando um homem, ou uma mulher sente que seu estado de castidade está ameaçado pelos desejos sensuais que se afloram, entregam ao jejum para que o estado de abatimento do organismo, motivado pela inanição acabe por sufocar tais desejos. Posso te garantir: funciona.
                 Acho o jejum uma das mais belas declarações de amor a Deus e deve ser praticado sempre que se achar necessário, porém há pessoas que não podem e não devem jejuar, por exemplo, pessoas que tomam remédios continuados, ou pessoas que sofrem de problemas com suco gástrico, ou algo do tipo. Felizmente, para o cristão não existe apenas um modo de expressar seu amor ao Pai. Acho que mais eficaz que a abstinência de comida é a abstinência de maus pensamentos. Dessa forma, existem aqueles que jejuam e aqueles que simplesmente “passam fome”. Já vi pessoas entrarem por um dia inteiro em jejum e no fim do dia ser surpreendidas caluniando o próximo. Não adianta fazer um jejum de alimento físico se envenenamos a alma com as toxinas do ódio.
                Se pudesse orientar alguém em relação ao jejum, diria: Coma o quanto puder e ame em dobro. Convidar aquele que te calunia para comer um banquete à sua mesa vale mais que toda uma vida de jejum. Você pediu para eu expressar minha opinião a respeito do jejum e como seria minha análise do seu lado bom. Acho que o lado bom do jejum é aquele que te faz bem, para fazer bem ao próximo. Nenhuma vida, seja ela cristã, muçulmana, judia, budista, espírita, hindu, atéia, etc. vale a pena ser vivida sem amor. Em suma, meu iluminado e mui querido irmão, se você ama não precisa jejuar, pois o amor, tanto a Deus quanto ao próximo só pode ser mostrado de uma forma: Amando. Mas essa é uma necessidade que cada um de nós precisa analisar em nosso íntimo, em nossas conversas com o Pai. Ele sempre orienta seus filhos como proceder no caminho.
                Que a Paz do Cristo lhe seja por companhia.
     Nele::

segunda-feira, 30 de maio de 2011

COMO DIFERENCIAR UM CRISTÃO DE UM EVANGÉLICO





Algumas pessoas, não satisfeitas com um determinado grupo religioso a que pertencem, e que chamam igreja, criam um novo grupo, que passam a chamar igreja também, transformam esse grupo numa  instituição registrada em cartório, com CNPJ, inscrição estadual, ata de fundação, diretoria, assessoria jurídica, etc e por fim reúnem tudo isso num mesmo “pacote” e denominam “Igreja Evangélica do Blá, Blá, Blá” e depois saem exortando a todos aqueles que não pertencem a esse grupo, que se não for através dele, estarão condenados ao inferno. – Isso pode SIM, ser a “IGREJA EVANGÉLICA” fundada por pastores, e bispos (não esquecer os “apóstolos” que a coisa agora virou moda), mas NÃO é a Igreja Cristã, fundada por Jesus.
O que estou dizendo? Esta é a Igreja Evangélica, mas não é a “Igreja Cristã”. Ela até pode ser enquadrada como Igreja Cristã na moderna compreensão do termo, mas não o é no sentido bíblico, pois igreja, pelo menos dentro da compreensão cristã bíblica é algo muito mais espiritual e místico do que isso que têm se apresentado ao longo de tantos anos.
Ao olhar de forma desatenta, podemos não perceber, mas existem muitas diferenças entre aqueles que são Cristão e os que são evangélicos. Segue-se uma lista que visa traçar uma linha entre os dois, a fim de tornar evidente o quanto à chamada “Igreja Evangélica” tem se afastado do cristianismo autêntico.
Ei-la:


� O Evangélico prioriza seus líderes.
† O cristão tem em primeiro plano Jesus.
� O evangélico tem medo do pastor.
† O cristão teme a Deus.
� O evangélico tem a congregação como o templo para encontrar com Deus.
† O cristão tem consciência de que ele mesmo é o templo no qual Deus habita.
� O evangélico evita fazer uma série de coisas por meio de proibições.
† O cristão decide fazer ou não alguma coisa com base na liberdade cristã.
� O evangélico vive com a bíblia na cabeça.
† O cristão tem a bíblia no coração.
� O evangélico só fala de religião.
† O cristão só fala de Jesus.
� O evangélico vive recitando a bíblia.
† O cristão procura viver a bíblia.
� O evangélico ama a política.
† O cristão ama os políticos.
� O evangélico condena ao inferno aqueles que não fazem parte de sua denominação.
† O cristão procura caminhar com todos aos céus.
� O evangélico só consegue servir a Deus dentro de sua denominação.
† O cristão serve a Deus em qualquer lugar.
� O evangélico possui dois perfis; um para os cultos a noite e outro para usar no lado de fora.
† O cristão busca ser a mesma pessoa o tempo todo.
� O evangélico tem como único assunto a sua igreja, suas doutrinas e seus costumes.
† O cristão busca não ser uma pessoa bitolada.
� O evangélico faz guerra denominacional.
† O cristão faz guerra contra o mal.
� O evangélico age como se tivesse comprado o céu só para ele.
† O cristão sabe que Deus deseja salvar a todos.
� O evangélico age como se Jesus fosse sua propriedade privada.
† O cristão tem consciência que Jesus é quem é o Senhor de tudo.
� O evangélico está sempre se metendo em discussão em defesa de sua “igreja”.
† O cristão sabe que pertence a Igreja de Jesus e é ele quem a defende.
� O evangélico tem compromisso com sua “igreja”.
† O cristão é comprometido com o evangelho.
� O evangélico é rápido em julgar as pessoas.
† O cristão jamais se sente no papel de juiz.
�O evangélico só se relaciona com outros evangélicos que pertençam a sua igreja.
† O cristão constrói relacionamentos com o máximo de não cristãos possíveis, pois sabe que a pregação do evangelho começa por uma amizade saudável.
� O evangélico tenta converter as pessoas através de sermões e convencê-las de que sua igreja é a melhor.
† O cristão fala de Jesus através do exemplo de vida e deixa a conversão a encargo do Espírito Santo, pois é ele quem convence o homem de seus pecados.
� O evangélico diz que você precisa de uma igreja.
† O Cristão diz que você precisa de Jesus.
�O evangélico ora como o fariseu e quer ser comparado com o publicano.
† O Cristão ora como o publicano e ainda assim se sente um fariseu.
� O evangélico diz que devo fazer o que é bom para Deus ser bom comigo.
† O Cristão afirma que Deus é bom independente do que eu seja.
� O Evangélico vê o demônio em tudo
† O cristão diz que toda a terra está cheia da glória de Deus.
� O Evangélico fala mais no diabo do que em Deus.
† O Cristão só fala em Deus.
� O Evangélico é aquele que quando as coisas ruins acontecem com os outros ele diz: “Viu? Deus está castigando você!”
† O Cristão é aquele que quando as coisas ruins acontecem com os outros ele diz: “Estou aqui, querido. Conte comigo. Vamos atravessar esse deserto juntos”.
� O Evangélico é aquele que aponta o erro da pessoa.
† O cristão é aquele que busca tirar a pessoa do erro.
� O evangélico afirma ser um cristão.
† O cristão tem consciência de que não é um evangélico.

Meu nome é Paulo Antonio e eu escrevo este Blog.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Sobre Oração, graça e sacrifício

Um “engraçadinho” escreveu certa vez que, a diferença entre o fato de você falar com Deus e Deus falar com você é que, “quando você fala com Deus você está orando; Quando Deus fala com você, você está ficando maluco”. Bem, eu tenho outra visão sobre o tema: Acho que quando Deus fala com você é sinal de que você foi alcançado pela grandeza de Sua misericórdia e isso Ele faz de várias maneiras, e mesmo em se tratando de alguém “distraído” como é o meu caso, esse alguém percebe de imediato que se trata de uma resposta do Pai. Sua voz é inconfundível, não há como não saber.
A oração tem sido o principal meio de comunicação com o Pai, desde que o homem começou a caminhar sobre a terra. É uma pena que em tempos recentes essa prática tem sido relegada ao descaso ou transformada em uma prática subversiva e irresponsável.
Mas, o que é oração? Do ponto de vista da nossa ortografia, temos a translúcida elucidação advinda do dicionário Aurélio, autoridade mais aceita e absolutamente inquestionável dentro do quesito Língua Portuguesa. Entre outras considerações oração é: (Do lat. oratione.) Substantivo feminino. 1. Súplica religiosa; reza .
         Reza? Isso mesmo. Para o desconforto dos evangélicos que insistem em traçar uma diferença entre oração e reza, a observação é absurdamente clara. Orar e rezar são a mesma coisa. A diferença é que existem modelos decorados, aquele que nas liturgias católicas a repetição é capaz de dar dor de dente em serrote e aquelas espontâneas, que são gritadas todas ao mesmo tempo, como é o modelo pentecostal de oração, que acaba transformando o ambiente numa confusão ininteligível de vozes, onde todos falam coisas diferentes conversando com o mesmo Deus, que apesar dos gritos, esse Deus não é surdo, os gritos são por conta do que se imagina ser “ação do Espírito Santo na vida do crente”, ou seja, a “ação do Espírito Santo” sempre leva esses novos cristãos á histeria coletiva, aos pulos, sapateados, gritos e outras coisas mais, pois santificação dentro desse modelo deve ser apresentada com essas manifestações visíveis, externas, onde a emoção fundamentalmente humana é parte inseparável do culto.
         Todas as religiões possuem um modelo de prece, oração ou meditação e parece ser unânime a idéia de que oração é o momento em que falamos com Deus, seja deitado, ajoelhado, de pé, a postura parece não interessar muito, desde que se tem um pensamento ligado em Deus, aliás, para alguns evangélicos, como é o caso da Congregação Cristã no Brasil orar, só de joelhos, e para alguns grupos pentecostais como Assembléia de Deus, ainda prevalece às práticas dos sacrifícios para alcançar bênçãos, onde se incita as longas orações, vigílias, subidas em montes e madrugadas.
         “Quem não ora muito, não recebe muitas bênçãos”, “oração de madrugada é a chave para a vitória”, “crente que não ora de madrugada está mais sujeito a tentação” essas frases adversativas acabaram tornando palavras de ordem nas cartilhas pentecostais no Brasil e no mundo com a cobrança de pastores que exigem mais empenho por parte dos fiéis em “pagar o preço” para adquirir um determinado favor de Deus.
         A prática do evangelho moderno acabou por incorporar uma infinidade de elementos estranhos no cristianismo, como estranha é a teologia defendida e vivida por esses cristãos novos e seus novos conceitos de graça. “É preciso orar de madrugada para receber a benção de Deus, pois você precisa pagar o preço”. Adquirimos de Deus o favor pelo qual pagamos, (e isso soa muito estranho, pois se é favor, não precisaria pagar) seja o emprego que sonhamos, a casa nova que quitamos, o carro novo que compramos, a doença da qual alguém ficou curado, nada ficamos devendo a Deus, pois Ele nada nos deu, não recorreu ao mistério da graça, explicado como o favor imerecido; dessa vez Ele foi até a gôndola celeste e pegou a benção, consultou a tabela de preços e enviou ao comprador.  "Agradecemos a preferência, volte sempre, servimos bem para servir sempre". - Estou falando do Deus que serve, do Deus servo, do Deus que tem o homem como um bom cliente. O evangelho passa a ter uma característica de compra e venda e Deus deixa de ser um pai que “não dá uma pedra quando o filho pede um pão” Ele agora é um comerciante que exige um preço justo, pois sua mercadoria é da melhor qualidade, afinal Ele é Deus e o homem deixa suas características de filho e passa a ser um comprador em potencial, um consumidor que está sempre disposto a pagar um preço justo pela melhor mercadoria. A oração, aquela citada prática presente em todas as culturas, em todas as religiões do mundo, perde seu sabor de espontaneidade, de busca pelo prazer, de diálogo com o criador, perde o seu sabor de intimidade com o Pai e passa para a esfera humana da negociata, da compra e venda, deixa de ser graça e passa a ser mercadoria.
O amor deixa de ter sua importância fundamental e começa prevalecer o interesse pessoal do que busca. A oração não é mais o veículo da adoração; não existe mais a oração de Davi, com o reconhecimento de que Deus é o Senhor absoluto de tudo e de todos, e quanto a mim, “em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl.51.5). Perdemos o sabor da oração de espírito voluntário, pois a oração moderna está em oposição a esse critério, é o oposto, pois estamos falando da “oração da negociata” e esta está cheia de segundas intenções tendo o homem e suas vontades como o centro, afinal, trata- se de negociação.
         O movimento pentecostal moderno tem que reavaliar seus conceitos se pretende continuar na senda do cristianismo. Precisa encontrar o caminho da volta, pois está perceptivelmente se afastando (como o catolicismo) da verdadeira fé. Existe uma infinidade de termos novos que acabam por alcançar outros alvos e, conseqüentemente acertar outras crenças, a crença no homem, o ser humano praticando seus atos de justiça e recebendo o reconhecimento de Deus, pois afinal, quando se faz um grande trabalho, espera-se ser recompensado pelo que se fez.
         É o pagamento no final do mês, o salário requerido pelos dias trabalhados. Não é mais a graça, agora é a vez da troca, da barganha. “Eu orei de madrugada, fiz o sacrifício, agora quero a minha bênção”. É a oração sacrifical, pois o sacrifício do Cordeiro de Deus tornou-se insuficiente, não serve mais. Eu preciso sacrificar a fim de obter algo, pois “é o preço a ser pago”.
Vivemos o tempo do evangelho humano, plenamente humano. O tempo do evangelho antropocêntrico, que tem o homem comprando suas próprias bênçãos diretamente de Deus, pois o Cristo parece ter feito algo errado que só foi descoberto dois mil anos depois, e esse erro levou o homem à triste condição de ter de adquirir um pacote divino que não cobre todos os requisitos, ou seja, esse pacote é válido para se ganhar a salvação, mas para garantir o resto, o indivíduo precisa pagar por fora. A oração perdeu seu alvo principal e o jejum deixou de ter seu aspecto de louvor. Antes era o abatimento da carne para a elevação do espírito, agora se transforma em moeda. Todos os dias se ouvem nos templos e em todos os meios de comunicação minados pela mídia evangélica a falácia profana de que “devemos pagar o preço”. O que impressiona é a criatividade dessa gente para lavrar frases com sotaque bíblico, que por vezes são repetidas pelos fiéis como se fossem parte dos textos sagrados, e o que preocupa é a  irresponsabilidade com que se atiram à tarefa de criar uma bíblia paralela. “Devemos pagar o preço se quisermos obter bênçãos de Deus” – Já li a bíblia inteira por várias vezes e ainda não encontrei nela esta frase, mas sou brasileiro e não desisto nunca; continuo procurando.
         Impressionante como a bíblia trata com asco os atos de justiça do homem:
 "Nossos atos de justiça são trapos de imundície..." - Is.64.6  - Caso fique alguma dúvida, imundície é a forma como o Antigo Testamento denominava o fluxo menstrual nas mulheres hebréias. Trapo de imundície seria algo como "panos velhos usados pelas mulheres no período da menstruação". É isso mesmo, esses crentes pensam pagar o preço com seus atos de justiça diante de Deus e não percebem que tudo o que temos e recebemos Dele é pelo fato de existir um Deus bondoso demais pra nós. Mas ignora-se isso, ignora-se que as minhas tentativas de ser bom não mudariam em nada o caráter de Deus.
         Esses novos cristãos dispensam mais tempo falando do que temos que fazer pra Deus e pouco ou nada se tem falado do que Deus tem feito por nós. Isto é, a teologia da redenção do homem pelo homem.        
         O pentecostalismo inaugura uma nova era, a era das indulgências evangélicas, aquela que faz um crente ir ao céu, não por que Deus é bom, mas por que o crente está disposto a pagar um preço muito alto para conseguir fazer um investimento na eternidade; é o preço a ser pago, pois nada se consegue “de bandeja”, de “mão beijada”, e nisso, o crente está disposto a se colocar como o autor de sua própria salvação, pagando o preço para conseguir sua mansão com vista para o rio da vida. 
Nesse caso, concordo com aquele “engraçadinho”; se Deus responder à sua oração feita nesses moldes, pode apostar: Você estará ficando maluco.

Meu nome é Paulo Antonio e eu escrevo este Blog.